LITERATURA

‘Eu tomo conta do mundo’, uma crônica de Clarice Lispector

Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar, e vejo às vezes que as espumas parecem mais brancas e que às vezes durante a noite as águas avançaram inquietas, vejo isso pela marca que as ondas deixaram na areia. Olho as amendoeiras de minha rua. Presto atenção se o céu de noite, antes de eu dormir e tomar conta do mundo em forma de sonho, se o céu de noite está estrelado e azul-marinho, porque em certas noites em vez de negro parece azul-marinho.

O cosmos me dá muito trabalho, sobretudo porque vejo que Deus é o cosmos. Disso eu tomo conta com alguma relutância.

Observo o menino de uns dez anos, vestido de trapos e macérrimo. Terá futura tuberculose, se é que já não a tem.

No Jardim Botânico, então, eu fico exaurida, tenho que tomar conta com o olhar das mil plantas e árvores, e sobretudo das vitórias-régias.

Que se repare que não menciono nenhuma vez as minhas impressões emotivas: lucidamente apenas falo de algumas das milhares de coisas e pessoas de quem eu tomo conta. Também não se trata de um emprego pois dinheiro não ganho por isso. Fico apenas sabendo como é o mundo.

Se tomar conta do mundo dá trabalho? Sim. E lembro-me de um rosto terrivelmente inexpressível de uma mulher que vi na rua. Tomo conta dos milhares de favelados pelas encostas acima. Observo em mim mesma as mudanças de estação: eu claramente mudo com elas.

Hão de me perguntar por que tomo conta do mundo: é que nasci assim, incumbida. E sou responsável por tudo o que existe, inclusive pelas guerras e pelos crimes de lesa-corpo e lesa-alma. Sou inclusive responsável pelo Deus que está em constante cósmica evolução para melhor.

Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas: elas andam em fila indiana carregando um pedacinho de folha, o que não impede que cada uma, encontrando uma fila de formigas que venha de direção oposta, pare para dizer alguma coisa às outras.

Li o livro célebre sobre as abelhas, e tomei desde então conta das abelhas, sobretudo da rainha-mãe. As abelhas voam e lidam com flores: isto eu constatei. Mas as formigas têm uma cintura muito fininha. Nela, pequena, como é, cabe todo um mundo que, se eu não tomar cuidado, me escapa: senso instintivo de organização, linguagem para além do supersônico aos nossos ouvidos, e provavelmente para sentimentos instintivos de amor-sentimento, já que falam. Tomei muita coisa das formigas quando era pequena, e agora, que eu queria tanto poder revê-las, não encontro uma. Que não houve matança delas, eu sei porque se tivesse havido eu já teria sabido.

Tomar conta do mundo exige também muita paciência: tenho que esperar pelo dia em que me apareça uma formiga. Paciência: observar as flores imperceptivelmente e lentamente se abrindo.

Só não encontrei ainda a quem prestar contas.

– Clarice Lispector, do livro “Aprendendo a viver”. Rio de Janeiro: editora Rocco, 2004. [Crônica de Clarice Lispector, publicada originalmente no ‘Jornal do Brasil, 4 de março de 1970]

Sabia mais Clarice Lispector:
:: Clarice Lispector – outras entrevistas, contos e crônicas
:: Clarice Lispector – um mistério (Biografia)
:: Clarice Lispector – fortuna crítica

Revista Prosa Verso e Arte

Música - Literatura - Artes - Agenda cultural - Livros - Colunistas - Sociedade - Educação - Entrevistas

Recent Posts

Musical ‘Os Sons de Notre Dame’, em única apresentação no Teatro Gazeta, em São Paulo

São Paulo vai despertar ao soar de Notre Dame com espetáculo baseado no clássico literário…

7 horas ago

Belas Sonoriza exibe ‘Sonhos’ de Akira Kurosawa, musicado ao vivo

Programação do Cine Reag Belas Artes, que traz um filme com trilha sonora executada ao…

9 horas ago

Arco Musical Brasil leva versatilidade do berimbau ao Cine Santa Tereza, em Belo Horizonte

Com sincronia entre som e imagem, Arco Musical Brasil leva versatilidade do berimbau ao Cine…

9 horas ago

Festival dos Povos da Floresta abre chamamento para os artistas

A Amazônia em destaque em uma celebração inédita da arte e da cultura brasileira, com…

10 horas ago

Espetáculo ‘O Céu da Língua’, com Gregorio Duvivier chega em São Paulo

Depois de passar por Lisboa, Porto, RJ, Curitiba, Porto Alegre e interior de SP, O…

11 horas ago

Ana Cacimba apresenta o show “Voz e Asalato” no Sesc Palladium

A artista Ana Cacimba celebra a ancestralidade e a cultura afro-brasileira em apresentação marcada para…

11 horas ago