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“Bingo” é chance de conhecer os filmes com Arlindo Barreto – André de Paula Eduardo

Muita gente foi ver “Bingo, o rei das manhãs” movido pela curiosidade sobre a figura do palhaço Bozo, obrigatória para quem viveu ao menos alguns anos da amalucada década de 80. E o filme de Daniel Rezende explora justamente a trajetória de seu mais famoso intérprete – Arlindo Barreto, que permite pensar até numa semelhança narrativa com filmes de Scorsese, com o mesmo trajeto “ascensão/ queda vertiginosa/ alguma redenção possível” (“O touro indomável”, “Os bons companheiros”, “O lobo de Wall Street”). As lendas que se ouviu por décadas (um Bozo alcoólatra e cheirador de pó), aliados ao clima politicamente incorreto típico dos programas da época, percorrem todo o filme.

Não que haja novidade nisso. O humorístico “Hermes e Renato” há uns quinze anos atrás parodiava o Bozo, com trocadilhos infames sobre todos os personagens do programa e suas canções. Mas se o Bozo voltou a ser assunto (vivido por Vladimir Brichta no filme), “Bingo” é também uma oportunidade de relembrar que Arlindo Barreto realizou diversos filmes antes de encarnar o palhaço, alguns muito bons e outros bastante curiosos.

“Bingo” pinta Arlindo como um ator “pornográfico”, coisa que nunca foi. Esteve em diversas pornochanchadas – essa definição tão genérica e que pouca explica –, tanto quanto Nuno Leal Maia, Antonio Fagundes, Otávio Augusto, Helena Ramos, Paulo Villaça, Vera Fischer e uma multidão de atores importantes. Foi, sim, ator de diversas produções da Boca do Lixo paulistana, quase toda com algum apelo erótico até tornar-se o Bozo.

Qualquer pesquisa básica no Imdb aponta de cara a atuação de Barreto em “A intrusa” (1979). Já temos aqui um mérito extraordinário: atuar num filme de Carlos Hugo Christensen, nascido na Argentina, mas que fez seu principal cinema no Brasil e é dos maiores realizadores de um e outro país. “A intrusa”, aliás, produção brasileira, se passa no extremo sul do Brasil, nos pampas de Uruguaiana. Tem a música assinada por Astor Piazzolla (que a compôs no Rio de Janeiro) e é baseado num conto de Jorge Luís Borges.

Arlindo Barreto e Maria Zilda Bethlem em A intrusa. Fonte: Cinemateca Brasileira

Barreto atua ao lado de José de Abreu, dois irmãos cuja rotina é quebrada com a presença da “intrusa” vivida por Maria Zilda Bethlem. A presença da moça serve, no entanto, para reforçar a necessidade que um irmão precisa do outro – com grande acento homoafetivo. Christensen, que rodou alguns dos mais belos filmes brasileiros (“Viagem aos seios de Duilia” e “O menino e o vento”, dentre outros) realiza em “A intrusa” uma obra invulgar, fundamental em seu cinema. Há uma ótima lembrança do filme no blog Estranho Encontro.

“A intrusa” deve ser o melhor filme na carreira do futuro Bozo. Mas nem de longe de ser o único a ser lembrado. “Corpo devasso” (1980), elegantemente dirigido por Alfredo Sternheim e estrelado por David Cardoso, tem papel de destaque para Barreto, e novamente num personagem homossexual. Outra pérola que merece ser relembrada – Sternheim, que fez carreira na Boca do lixo, antigo assistente de ninguém menos que Walter Hugo Khouri, é um cineasta muitíssimo acima da média, autor de belezas como “Pureza proibida” (1974) e “Herança dos devassos” (1980).

Por falar na Boca, impossível não mencionar a parceria com Ody Fraga. Atuaria em “Palácio de Vênus” (1980) e “A fábrica de camisinhas”, de 1982, (roteirizado por Ody e dirigido por Ary Fernandes), ambos repletos de referências ao momento político da época. Seu maior momento na Boca está em “E agora José – tortura do sexo” (1979), um marco no cinema brasileiro. Sem entrar nos méritos artísticos – há quem caracterize o filme como algo um tanto vulgar –, foi uma autêntica prova de fogo quanto à censura da época. O protagonista, vivido por Barreto, é preso arbitrariamente, acusado de pertencer a uma organização subversiva, barbaramente torturado. Se limitado nos moldes, no assunto era urgente e ousado, anos antes de outros filmes mais famosos abordarem o tema (“Pra frente, Brasil”, “O bom burguês”, “Ao sul do meu corpo” etc).

Tornar-se o Bozo significou um crepúsculo para Arlindo Barreto como ator de cinema. As razões são diversas: quase meia década interpretando o palhaço, e no exato momento em que a Boca do Lixo e as pornochanchadas decaíam barbaramente, além dos óbvios problemas pessoais do ator. O período posterior é particularmente terrível para o cinema brasileiro. No entanto, se no futuro seu nome for lembrado, não será menos pelo efêmero televisivo do SBT e mais pelos filmes que em algum momento ressurgirão, nas mostras, Dvd´s ou nos torrents obscuros que fazem a festa da cinefilia?

André de Paula Eduardo é jornalista, formado na Unesp, onde fez mestrado em Comunicação. Pesquisa cinema brasileiro, torce pro Santos e é apaixonado por Brahms e Pink Floyd. Colunista e colaborador da Revista Prosa Verso e Arte.

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