LITERATURA

Marina Tzvietáieva – poemas

À vida

Não colherás no meu rosto sem ruga
A cor, violenta correnteza.
És caçadora – eu não sou presa.
És a perseguição – eu sou a fuga.

Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes, o corcel

Árabe.

25 de dezembro de 1924
.

Жизни

Не возьмешь моего румянца —
Сильного — как разливы рек!
Ты охотник, но я не дамся,
Ты погоня, но я семь бег.

Не возьмешь мою душу живу!
Так, на полном скаку погонь —
Пригибающийся — и жилу
Перекусывающий конь

Аравийский.

25 декабря 1924
– Marina Tzvietáieva (Марина Цветaева), no livro “Poesia da recusa”. [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

A Carta

Assim não se esperam cartas.
Assim se espera – a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro – uma palavra
Apenas. Isto é tudo.

Assim não se espera o bem.
Assim se espera – o fim:
Salva de soldados,
No peito – três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.

Felicidade? E a idade?
A flor – floriu.
Quadrado no pátio:
Bocas de fuzil.

(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.

Quadrado da carta.

11 de agosto de 1921
.

Письмо

Так писем не ждут,
Так ждут — письма.
Тряпичный лоскут,
Вокруг тесьма
Из клея. Внутри — словцо.
И счастье. — И это — всё.

Так счастья не ждут,
Так ждут — конца:
Солдатский салют
И в грудь — свинца
Три дольки. В глазах красно.
И только. — И это — всё.

Не счастья — стара!
Цвет — ветер сдул!
Квадрата двора
И черных дул.

(Квадрата письма:
Чернил и чар!)
Для смертного сна
Никто не стар!

Квадрата письма.

11 августа 1923
– Marina Tzvietáieva (Марина Цветaева), no livro “Poesia da recusa”. [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Do ciclo “Louvor de Afrodite”

Diante de um rio que é já outro rio
Já os deuses doam menos.
Do largo pórtico sombrio,
Voem, pombas de Vênus!

Mas eu, aqui na areia gélida,
Dia após dia me olho sem saída,
Como serpente que olha a velha pele, da
Juventude desvestida.

17 de outubro de 1921
.

Хвала Афродите

Уже богов — не те уже щедроты
На берегах — не той уже реки.
В широкие закатные ворота
Венерины, летите, голубки!

Я ж на песках похолодевших лежа,
В день отойду, в котором нет числа…
Как змей на старую взирает кожу —
Я молодость свою переросла.

17 октября 1921
– Marina Tzvietáieva (Марина Цветaева), no livro “Poesia da recusa”. [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Do ciclo “O Aluno”

Pelos montes – túmidos e úmidos,
Sob o sol – potente e poento,
Com a bota – tímida e humilde –
Atrás do manto – roxo e roto.

Pelas areias – ávidas e ácidas,
Sob o sol – candente e sedento,
Com a bota – tímida e humilde –
Atrás do manto – rasto e rasto.

Pelas ondas – rábidas e rápidas,
Sob o sol – idoso e iroso,
Com a bota – tímida e humilde –
Atrás do manto – que mente e mente…

23 de abril de 1921
.

ученик

По холмам – круглым и смуглым,
Под лучом – сильным и пыльным.
Сапожком – робким и кротким –
За плащом – рдяным и рваным.

По пескам – жадным и ржавым,
Под лучом – жгущим и пьющим,
Сапожком – робким и кротким –
За плащом – следом и следом.

По волнам – лютым и вздутым,
Под лучом – гневным и древним,
Сапожком – робким и кротким –
За плащом – лгущим и лгущим…

23 апреля 1921
– Marina Tzvietáieva (Марина Цветaева), no livro “Poesia da recusa”. [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Do ciclo “Insônia”

Negra como pupila; como pupila, sol
Sugado – eu te amo, noite.

Dá-me uma voz para cantar-te, mãe-matriz
Da canção, que tens as rédeas dos quatro ventos.

Quando te invoco e te venero, sou só
Uma concha, que o oceano ainda soa.

Noite! Já vi demais a pupila dos homens!
Incinera-me, sol carbonizado – noite!

9 de agosto de 1916
.

Бессонница

Черная, как зрачок, как зрачок, сосущая
Свет — люблю тебя, зоркая ночь.

Голосу дай мне воспеть тебя, о праматерь
Песен, в чьей длани узда четырех ветров.

Клича тебя, славословя тебя, я только
Раковина, где еще не умолк океан.

Ночь! Я уже нагляделась в зрачки человека!
Испепели меня, черное солнце — ночь!

9 августа 1916
– Marina Tzvietáieva (Марина Цветaева), no livro “Poesia da recusa”. [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

***

Saiba mais sobre a poeta russa Marina Tzvietáieva (Biografia, obras publicadas e outros poemas:

Marina Tsvietáieva – poeta russa

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