Vera Holtz em cena no monólogo 'Ficções' - foto: Ale Catan
Escrito e dirigido por Rodrigo Portella, Ficções tem como base principal o best-seller Sapiens – Uma Breve História da Humanidade, do professor e historiador israelense Yuval Noah Harari que traça um perfil da evolução humana em busca de elucidar a pergunta: o que nos torna capazes de subjugar outras espécies?
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Com Vera Holtz, peça “Ficções” evoca paradoxo entre criação e vida – Transposição teatral do livro “Sapiens”, adaptação de Rodrigo Portella aborda a realidade ficcional do ser humano
– por Gabriela Mellão / Bravo Abril
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Uma moldura, ornamento que dá status de arte a uma obra, enquadra um meteoro na peça Ficções, livre adaptação assinada por Rodrigo Portella do best-seller “Sapiens- Uma breve história de humanidade”. A moldura tomba (idealização da cenógrafa Bia Junqueira), evocando o paradoxo entre criação e vida que está no cerne do livro escrito pelo filósofo israelense Yuval Noah Harari.
Nele, Harari salienta a realidade ficcional do ser humano, já destacada por Shakespeare em Medida por Medida — “O mundo é um palco; os homens e as mulheres meros artistas, que entram nele e saem” —, , transformada em paródia por Portella no espetáculo que foi um dos destaques da cena teatral do ano passado e está de volta ao teatro Faap, em São Paulo, até 28 de julho, após uma turnê de cidades do Brasil e de Portugal.
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A peça explora o sentido de ficção em diversas direções, conectando realidades criadas pela humanidade com o próprio acontecimento teatral. Enquanto a protagonista Vera Holtz repassa fragmentos da história criada por sua espécie sobre ela própria, invenções se transformam, se misturam. Num momento, uma banana é uma banana. No outro, é um telefone por meio do qual a atriz conversa com seu suposto marido, de mesmo nome que o autor de “Sapiens” — ele próprio representado de diferentes maneiras dependendo da cena.
A peça explora o sentido de ficção em diversas direções, conectando realidades criadas pela humanidade com o próprio acontecimento teatral. Enquanto a protagonista Vera Holtz repassa fragmentos da história criada por sua espécie sobre ela própria, invenções se transformam, se misturam. Num momento, uma banana é uma banana. No outro, é um telefone por meio do qual a atriz conversa com seu suposto marido, de mesmo nome que o autor de “Sapiens” — ele próprio representado de diferentes maneiras dependendo da cena.
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De primata, Holtz passa a imperador da Babilônia, asno com pinta de professor, fóssil em busca de identidade, ela mesma e ainda, visitando o trágico que chega com a força do desavisado, uma mulher tiranizada, violentada, escravizada, entre outros personagens. A peça se propõe a descortinar ficções da civilização quebrando a ilusão teatral. As metamorfoses são desconstruídas de modo a revelar o máximo de realidade que se pode chegar em um território ficcional como o teatro.
Numa atuação híbrida entre Vera e a multiplicidade de personas que atravessa, a atriz ressalta a realidade fantasiosa da vida e, ao mesmo tempo, o caráter verdadeiro dessa irrealidade. A ficção não é falsa. Existe, e é justamente por isso que a atriz está em cena tentando construir uma verdade sobre si mesma, um entendimento sobre o que supõe, o que inventa, quem é, o que sabe sobre si, sua espécie e o mundo em que vive.
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Está em busca de compreensão e satisfação e vai terminar sua jornada nômade como seus ancestrais, rejeitando, se não todas, ao menos uma boa parte das construções que o homem criou com o intuito de organizar e fazer progredir a sociedade como dinheiro, sistemas políticos, religiões, ideologias, cujo resultado hoje é: de um lado a disparidade social, do outro o aprisionamento progressivo da liberdade individual. Holtz tenta conscientizar seus companheiros de raça e descontentamento sobre o fato de que, apesar da humanidade contemporânea ser mais poderosa em relação a seus companheiros de raça e descontentamento sobre o fato de que, apesar da humanidade contemporânea ser mais poderosa em relação a seus ancestrais, não é mais feliz e deveria fazer algo a respeito disso.
No livro, um fenômeno com mais de 23 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, Harari compõe uma narrativa histórica de todas as instâncias do percurso humano sobre a terra para leitores comuns. Com rigor científico e linguagem acessível, explica de forma leve e descontraída como o Homo Sapiens se tornou espécie dominante no planeta. Além do conteúdo, a linguagem da obra também inspira a adaptação teatral de Portella — autor e diretor que ganhou todos os prêmios importantes de teatro brasileiro na última década. Ao lado de Christiane Jathay, ele é o encenador brasileiro mais internacional do país (atualmente, ele está à frente da turnê europeia de “Tom na Fazenda”, peça escrita pelo canadense Michel Marc Bouchard).
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Portella conduz o espectador em uma viagem livre e descompromissada pela história da humanidade. A graça e abrangência da linguagem da peça estabelecem uma forte conexão com o público. Da mesma forma, Holtz se atém à capacidade de comunicação do trabalho. Atravessa a miríade de personagens que representa com despojamento e presença de palco raros de se ver. Sua atuação se equilibra entre a magnitude de uma artista em plena maturidade artística e a liberdade de uma criança intocada pelas convenções do mundo, que dá vida a tudo o que toca dotada de uma força vital contagiante.
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Na contramão deste movimento, a atriz domina os Sapiens para libertá-los do ciclo de aprisionamentos no qual se encontram consciente ou inconscientemente. Desarma suas proteções para torná-los mais receptíveis às reflexões críticas que conduz, adensadas no desenrolar do espetáculo.
É visível a musculatura adquirida por Ficções após quase 1 ano de estrada – 75 mil espectadores, 31 indicações de prêmios na bagagem e 5 estatuetas, como a de melhor atriz no Prêmio Shell e APTR.
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Vera surge ainda mais à vontade, livre e potente em cena para entreter e despertar a consciência da plateia. Está só e muito bem acompanhada no palco. Ficções é um monólogo feito em dupla. A atriz divide a cena com o músico italiano radicado no Brasil Federico Puppi, cujo talento para criar trilhas originais já foi destaque no país em peças como Enquanto você voava, eu criava raízes, da Cia. Dos à Deux e Mutações, de André Guerreiro Lopes.
Holtz e Puppi travam um diálogo constante que aproxima o espetáculo de uma Jam Session. A troca parece ter a linguagem do improviso como norte tamanha a espontaneidade e a vitalidade conquistadas. Ora a trilha executada ao vivo imprime o tom e o ritmo para a atriz, ora o caráter da cena conduz a criação de Puppi. Também cantam juntos, como no duelo memorável no qual cada um se serve de seus melhores instrumentos – ela a voz e ele o cello – para compor uma canção de onomatopeias.
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A comunicação viva entre os dois presentifica a cena gerando mais uma camada de invenção – ou seria de realidade? – nesta mistura entre fatos e ficções criada por Portella para embaralhar a mente do do espectador treinando sua percepção a desconfiar de convicções e, quem sabe, subir novos degraus na empreitada da conscientização de sua trajetória pessoal e coletiva. Há sempre novos degraus a a galgar sobretudo quando o que está em jogo é seu desenvolvimento próprio, ou de sua espécie.
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O espectador pode até driblar o proposto pelo espetáculo, mas ao sair do teatro vai ter que lidar com uma ficção bem mais complexa. Afinal, não há como escapar desse jogo ficcional que é a vida.
SINOPSE
Publicado em 2014, o livro de Harari afirma que o grande diferencial do homem em relação às outras espécies é sua capacidade de inventar, de criar ficções, de imaginar coisas coletivamente e, com isso, tornar possível a cooperação de milhões de pessoas – o que envolve praticamente tudo ao nosso redor: o conceito de nação, leis, religiões, sistemas políticos, empresas etc. Mas também o fato de que, apesar de sermos mais poderosos que nossos ancestrais, não somos mais felizes que esses. Partindo dessa premissa, o livro indaga: estamos usando nossa característica mais singular para construir ficções que nos proporcionem, coletivamente, uma vida melhor?
FICHA TÉCNICA
Idealizada: Felipe Heráclito Lima | Escrita e encenada: Rodrigo Portella / Inspirada a partir do livro Sapiens – Uma breve história da humanidade, de Yuval Noah Harari | Elenco: Vera Holtz | Performance e trilha sonora original: Federico Puppi | Interlocução dramatúrgica: Bianca Ramoneda, Milla Fernandez e Miwa Yanagizawa | Assistente de direção: Cláudia Barbot | Cenário: Bia Junqueira | Figurino: João Pimenta | Iluminação: Paulo Medeiros | Preparação corporal: Tony Rodrigues | Preparação vocal: Jorge Maya | Programação visual: Cadão | Fotos: Ale Catan | Direção de produção: Alessandra Reis | Gestão de projetos e leis de incentivo: Natália Simonete | Produção executiva: Wesley Cardozo | Administração: Cristina Leite | Produtores associados: Alessandra Reis, Felipe Heráclito Lima e Natália Simonete
SERVIÇO
Espetáculo: Ficções
Monólogo estrelado por Vera Holtz e escrito e encenado por Rodrigo Portella
Temporada: De 10 de maio até 28 de julho (2024)
Dias e horários: Sexta – 20h | Sábado – 20h | Domingo – 18h
Onde: Teatro FAAP (R. Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo/SP)
Duração: 85 minutos
Ingressos/valor: R$160 (Inteira) e R$80 (meia) / Ingresso Popular: R$42 (mezanino)
Ingressos online: clique aqui.
Classificação indicativa: 12 anos
Informações: IG @teatrofaap | Tel. (11) 3662-7233 | E-mail: teatro@faap.br
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